Vila Primeira da Ilha do Pico. Vila baleeira dos Açores. Mar e Terra cruzam-se numa História de 500 anos.

20
Ago 11

 

A Vila das Lajes, a primeira povoação da ilha, vive os seus dias maiores, neste ano de 2011, com a festa de Nossa Senhora de Lourdes.

De há longos anos a esta parte, esta é a Festa Maior das Lajes, se bem que o orago da Paróquia seja a Santíssima Trindade, que ao longo dos séculos, nunca teve uma destacada celebração litúrgica e festiva.

Talvez porque esse dia é também celebrado noutras paróquias.

Talvez porque a representação figurativa da Trindade é muito difícil, o mesmo não acontecendo com o Jesus histórico, a Virgem Maria, um Santo ou venerável.

Talvez porque o Mistério da Trindade é de difícil entendimento, a não ser aos olhos da fé, como explicou a criança que brincava na areia a Santo Agostinho quando este tentava um raciocínio lógico sobre a identidade das três Pessoas iguais e distintas.

O certo é que a Matriz das Lajes, cuja invocação é a Santíssima Trindade, não possui um único simbolo do seu Patrono que também é de algumas paróquias açorianas. As Lajes podia tê-lo feito, integrando-o no retábulo da capela-mor.

Que simbolo? Certamente um simbolo que decorresse da interpretação evangélica de um ou vários artistas plásticos, arquitetos e outros artistas, convidados para esse efeito.

Pode ripostar-se que é difícil materializar a Trindade, mas não foi isso que a Igreja fez, ao longo de dois mil anos, socorrendo-se de imagens para evangelizar os povos?

No princípio, a comunidade cristã não tinha necessidade dessa simbologia, tão próxima estava dos testemunhos dos apóstolos e discípulos. Com o passar dos anos, a igreja foi-se conformando com o poder de então e, a partir da era constantiniana, a magnificência e manifestação do poder religioso impôs-se aos fiéis, obrigados que foram a professar a fé cristã, sob pena de serem penalizados.

Não vale a pena condenar a história. Importa dela retirarmos os ensinamentos que expurguem das práticas religiosas tudo quanto possa ofuscar o essencial. E o Essencial é Deus- uno e trino- que se revelou em Jesus Cristo, nascido de Maria.

Foi isto que João XXIII pretendeu com a convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II. Abrir portas e janelas, para que o Espírito Santo, com o seu sopro vivificador, varresse toda a espécie de bulor, de exageros e de mundanícies que encobriam a verdadeira face da Igreja, povo de Deus, Povo sacerdotal e Comunidade dos crentes.

Esta é que é a Matriz da Igreja fundada por Cristo – ser Serva e Pobre. Não uma igreja portentado, que afirma a sua glória mundana em gastos supérfluos e transitórios e se impõe por discursos inflamados, barrocos e vazios que muitas vezes não anunciam o Evangelho de Jesus.

O que se esperava que fosse feito na Matriz das Ljes, edifício iniciado no século 19 e recomeçado nos anos 50 do século passado, era que a renovação litúrgica conciliar se traduzisse na simplicidade dos adereços e equipamentos indispensáveis à celebração do culto religioso, valorizando os retábulos barrocos existentes e de grande qualidade e introduzindo elementos artísticos atuais, se esses fossem considerados indispensáveis.

O exemplo da Sé de Angra reconstruída deveria ter sido paradigma a seguir.

Construir retábulos segundo modelos e estilos de há dois e três séculos não se compagina com as considerações que atrás expressei.

Por outro lado, os retábulos sumptuosos e magníficos que antigas igrejas possuem e preservam, significam um distanciamento de Deus, Altíssimo, Forte e Admirável que uma boa parte do Antigo Testamento transmite, mas já não condiz com o Senhor Jesus próximo, irmão e amigo do homem, que o Novo Testamento revela.

Não é apenas uma questão de estilos artísticos mais ou menos belos, é também uma ultrapassada concepção do cristianismo que, talvez inadvertidamente, se pretende manter.

Esta reflexão levar-nos-ía muito longe pois afeta também a praxis pastoral de distanciamento ou de proximidade, de participação eclesial ou de imposição inflexível sobre preceitos não evangélicos, de reflexão aberta ao Evangelho e à vida, ou da rejeição de opiniões diferentes, no pressuposto de que a autoridade na igreja é uma pirâmide, cujo topo é mais « iluminado » que a base...

 

Estas considerações não são crítica a ninguém.

São uma opinião de quem gostaria que a Igreja fosse uma comunidade serva e pobre, atenta aos sinais deste mundo em crise, abalado por um sistema económico que afeta os mais fracos e engorda os mais poderosos.

Que bom seria que a Igreja denunciasse esses atropelos, propusesse caminhos novos, segundo a sua doutrina social, e todo o povo de Deus fossem exemplo do seu Senhor que deu a vida por todos e rejeitou as honras, o poder, a magnificência, o fausto, a riqueza e recusou, violentamente, a idolatria e fez uma opção pelos mais pobres!...

 

publicado por sim às 17:17

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