Vila Primeira da Ilha do Pico. Vila baleeira dos Açores. Mar e Terra cruzam-se numa História de 500 anos.

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Nov 07
...e quando o mar crispava um pouco mais e a Carreira impedia a passagem para o chicharro no limpo, ou para o peixe de fundo para os lados do Castelete, os baleeiros encontravam-se junto à banqueta da casa dos botes do meio, onde Mestre João Maurício e mulher, tinham poiso habitual. João Lelé, Portugal, o Mestre Manuel Joaquim (Saurrau), e outros mais, também da Ribeira do Meio, ali travavam, habitualmente, discussões acesas sobre a última arriada. Isto foi há muitos anos, quando a Lagoa de baixo tinha porta aberta, frente á casa dos botes, à varagem de barcos e lanchas, traineiras e lanchões que traziam cargas do Lima - cimento, açúcar e sacas da América e levavam rezes- tantos animais!-, caixas de queijo e de manteiga, bidões de óleo de baleia, "milhames" de latas de conserva e cartas prenhes de saudades e de muitos obrigados. A conversa era marcada por grandes vozeirões, típicos da Pesqueira; as mulheres, escondidas nos lenços aguardavam o fazer a da ceia, encostadas à casa do Ti Ermelindo e os rapazes no muro do caneiro, engodavam as mujas que não se deixavam pescar. As discussões dos homens, acabavam sempre em bem e cada qual seguia o seu destino, convencido das suas razões. Afinal, o motivo principal de tão aparente discórdia eram as soldadas sempre magras que não davam para riscar o role da mercearia. Soldadas desiguais do Pico e do Faial, de São Mateus, do Capelo, das Flores e da Graciosa...Sempre só uns escudos por tanta labuta e tanto penar, dia-e-noite... Sempre a conversa de que o óleo não se vende, o preço é baixo, ninguém quer comprar... Perante tudo isto, a América,o Canadá...sempre no horizonte, à espera da carta-de-chamada que libertasse tantos lajenses para uma vida melhor! Passados tantos anos, a Lagoa, ainda guarda no seu fundo, lágrimas de angústia e de saudade de quantos partiram para terras da estranja, não sem vontade de ficar e de SER ALGUÉM AQUI.
publicado por sim às 17:34

Isto tudo foi o que aconteceu com meu pai (Deus lhe fale na alma). Veio para a América, para New Bedford , porque o Sr. Professor e o Sr. José Cristiano que se diziam zangados, mas encontravam-se pela calada da noite, bem como o Sr. José Rodrigues, no carro do «José Bidão, como meu pai lhe chamava), por cima na Estrada que vai para a Piedade e combinavam tudo como era. Um parece-me, segundo me disseram ainda outro dia, ainda está vivo e botando faladura no Ritinha , seu poiso favorito e é ainda escutado por uns «tantos» da sua laia. Esse Sr. que ainda está vivo fez muitas. Conheço um baleeiro que veio para o Canadá e nunca mais aí foi para não se encontrar com ele, senão, (foi meu pai que me contou), ele o matava. Acho que nunca faria isso, porque os baleeiros falavam, falavam, mas como meu pai dizia (cão que ladra não morde), de certo que até fugiria dele. A nossa safa foi a América. Meu pai morreu de saudade nesta terra que é de fartura, mas que é também.de muita solidão A soldada da baleia, como dizia meu pai, (a gente aguardava-a como coisa vinda do céu, para pagar na Loja do Sr. Edmundo e mesmo houve anos que nem deu para pagar as compras todas da caderneta). Meu pai quando me falava nisto chorava amargamente e acrescentava, «eu era um homem sério, por isso vim práqui com vocês mais tua mãe, para pagar o que devia». Isto contava meu pai, mas há muitas outras histórias que morreram com muitos baleeiros e nunca ninguém as saberá...
Emigrado a 29 de Novembro de 2007 às 14:02

Meio história de ficção, meio romance de cordel, o facto é que o meu amigo faz insinuações atentórias
ao bom nome das pessoas visadas.
Até prova em contrário, todos tem direito ao seu bom nome e quem é lajense sabe muito bem que o longo Inverno, o isolamento, a tal solidão e a pobreza (sobretudo a de espírito - a mais nefasta), estimulam a imaginação.
Se é algo que mereça ser investigado pelas autoridades, meu caro, denuncie e eu serei o primeiro a apoiá-lo. Senão, vá escrevendo as suas histórias, pois a gente lê-as com condescendência.
Mas lembre-se que acima de tudo, as nossas histórias devem ser dignas do nome que os nossos pais nos deram, quer optemos por assiná-las ou não.
paulo pereira a 29 de Novembro de 2007 às 23:59

Só para lhe dizer que não é ficção.
Antes de botar faladura procure, pois segundo dá a perceber é pessoa interessada em saber as verdadeiras estórias desse povo.
Procure, mas provavelmente,já vai encontrar,verdadeiros,muito poucos.
De qualquer forma só para satisfazer a sua curiosidade,porque àguas passadas não movem moinhos. Bom trabalho.
anonimo a 2 de Dezembro de 2007 às 00:05

O Portugal de antigamente era só de alguns, é um facto. O clero, os governantes e a classe instruída não só ocupavam lugares de destaque, como eram a própria autoridade. Assim, os pescadores e os lavradores, a esmagadora maioria da população, não tinham sequer onde cairem mortos, quanto mais reivindicar direitos. Neste contexto, junte-se umas pitadas de arrogância e prepotência e poderíamos dizer: a ocasião faz o ladrão.
Contudo, penso não ser este caso.
A partir da segunda metade do sec XX, generaliza-se o uso da electricidade na iluminação, dos óleos vegetais no fabrico de sabões e então, o óleo de baleia perde mercado. Os americanos já tinham deixado a baleação, pois, rentabilizar o óleo era um problema.
Nas Lajes, não conheço fortunas ligas à comercialização do óleo. Claro, que poderá ter havido uns tostões mais p’ra ali do que p’ra acolá, talvez, não mais do que isso. Mas, as contas das armações eram públicas. E mesmo considerando que águas passadas não movem moinhos, se essas contas estão arquivadas, por que não se faz investigação histórica séria nesta área?
Paulo Pereira a 4 de Dezembro de 2007 às 01:06

Meu caro Emigrado
Leio o seu comentário e fico num dilema. Digo, ou não digo, qualquer coisa sobre o assunto!? Eu, a quem o assunto não diz directamente respeito, sinto-me como se tivesse levado um murro no estômago. Pode crer! Primeiro porque sou capaz de reconhecer algumas das verdades (?) que fala no texto. Segundo porque respeito e muito, um dos visados. Todos nós sabemos naquela época vivia-se num País amordaçado, cinzentão e com imensas carências. Pode custar ouvir, mas o Portugal de outrora era uma nação miserável, onde os direitos da maioria não eram minimamente respeitados. Creio compreender a sua amargura e vamos lá a ver os comentários que, concerteza , se seguirão.
Daqui gostaria de lhe enviar um abraço fraterno e, ao mesmo tempo, lançar-lhe um pequeno desafio, agora que vivemos em Liberdade: Porquê não deixar caír o anonimato? Sinceramente.
artur xavier a 30 de Novembro de 2007 às 00:00

Concordo contigo Artur!!! Também ouvi muitas e muitas histórias. Todos sabemos que o Pais era uma porca miséria e nós por cá ainda pior. Como diz o Artur, se vivemos em liberdade, não vejo qual o problema de colocarem o nome nos comentários. Será que querem voltar ao antigamente...tudo ás escondidas??

Um abraço
josé manuel medina a 30 de Novembro de 2007 às 12:29

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