Vila Primeira da Ilha do Pico. Vila baleeira dos Açores. Mar e Terra cruzam-se numa História de 500 anos.

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Jan 06



Não pretendo com estas minhas crónicas em que, por hábito, refiro algumas memórias ou acontecimentos passados, consagrar o tempo que já lá vai como a melhor etapa da vida, embora a filosofia tenha consagrado o ditado “ o melhor tempo é o que já passou”.
Por experiência própria todos sabemos, porém, que é conhecendo a história da nossa família, da localidade, ilha ou país onde vivemos que tomamos gosto e damos sentido ao nosso viver individual e colectivo.
Vem tudo isto a propósito das nossas brincadeiras de criança.
Pessoa preocupada com a nossa identidade e protecção desse património lúdico e cultural, recordava-me os objectos e jogos tradicionais que em algumas ilhas aconteciam ao longo do ano.
Por esta altura do ano, a rapaziada ia às ladeiras cortar paus grossos de sabugueiro para fazer inofensivas armas de arremesso com casca de laranja americana.
O jogo do pião começava desde o sábado de Aleluia. Não se podia atirá-lo ao chão durante a Quaresma pois isso significava falta de respeito para com Jesus sofredor…
Mas havia jogos e brincadeiras de todo o ano: o jogo da macaca e do avião, riscado às casolas no chão com giz retirado da escola sem a professora ver, cujos praticantes eram sobretudo as raparigas; os jogos da cabra cega e do lenço que promoviam a sociabilização entre os garotos e garotas, quer no recreio da escola quer à noite no jardim em noite de verão; os jogos de canas, representando as canoas e lanchas na faina da caça à baleia; o jogo do bilro, muito praticado pelos adultos nas tardes de domingo e outros mais que agora não me ocorre.
A actividade lúdica das crianças ia até ao ponto de eles próprios construírem em madeira trotinetas com rodas, ou pequenos carros em caixotes e rodas de madeira, puxados por cães ou outros animais. E se a estes juntarmos os arcos de ferro ou de rodas de bicicleta movidos à mão por uma verga, com que a rapaziada corria pelas ruas ou os carrinhos de rodas de esferas dirigidos por uma engrenagem artesanal de madeira, então podemos constatar que a mocidade de há trinta ou quarenta anos se divertia muito porque não brincava em grupo e pelas ruas, como também era ela quem construía os seus próprios brinquedos e diversões.
O que atrás ficou mencionado representa apenas alguns laivos da minha memória sobre os jogos e brincadeiras da minha infância na Ilha do Pico, que poderão, eventualmente, coincidir também com actividades lúdicas infantis em outras Ilhas.
Importa, no entanto, que uma pesquisa mais profunda se faça na tradição cultural e na memória colectiva, recorrendo-se à recolha oral e à descrição desenhada de todos o jogos e engenhos que o nosso povo criou e aculturou, para que esse património não se perca.
Esse trabalho de investigação poderia e deveria ser efectuado pelas escolas, especialmente pela Universidade dos Açores, entidade onde, nos cursos de Ciências Sociais, se lecciona uma disciplina de Antropologia Cultural. É uma tarefa tão importante como o são as investigações sobre outros temas e vivências que, se não se for a tempo, acabam por perder-se com o desaparecimento das pessoas mais idosas.
Quer se queira quer não a produção em série invade cada vez mais o nosso comércio. De há uns anos para cá, as nossas crianças têm também acesso aos brinquedos mais modernos e sofisticados do mercado. Haja dinheiro e tudo já chega e se compra aqui. É a civilização consumista que “standartiza” todos os bens em todas as latitudes.
Resta saber se em louvor da globalização da economia vale a pena perdermos também a nossa identidade e a nossa matriz cultural.
Eu penso que não. Por isso aqui fica este alerta para que não se percam nas lojas e nos sótãos das nossas casas objectos que outrora promoveram a criatividade e a alegria de tantas crianças das nossas ilhas.
publicado por sim às 18:30

Aqui ficará talvez uma sugestão para quem este ano programar os festejos da Semana dos Baleeiros nas Lajes do Pico. A realização dum torneio entre diversas equipes, onde a caça à baleia, o jogo do pião, o jogo da cabacinha, o jogo do bilro, o da cabra cega, o do queimado, ou o da barra, seriam um recordar saudável na memória das gentes idosas que ainda por cá habitam e dariam também a sua participação, que seria aberto a idosos e jóvens e seria uma maneira de inculcar no espírito dos rapazes de agora que o desporto não se pratica só no campo de futebol ou no ginásio duma qualquer escola secundária. O alvitre para a nova Vereadora do pelouro da Cultura, vai ser mais uma achega para a elaboração do programa. Aceita a sugestão Dra. Vanda?escritor
(http://Que saudade!)
(mailto:meiodavila@iol.pt)
Anónimo a 13 de Janeiro de 2006 às 00:20

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